De despedida do Flamengo, Rafael Bernardelli enaltece a sua gratidão ao clube

Um ciclo com grande aprendizado, amadurecimento pessoal e profissional chegou ao seu final na semana passada. O preparador físico Rafael Bernardelli se despediu do Flamengo após 11 anos de serviços prestados ao clube e deixando sua marca para quem teve a oportunidade de conviver com ele no dia a dia. Aos jovens que fazem ou fizeram parte da categoria de base do basquete do Flamengo, o preparador sempre teve o reconhecimento pelo trabalho e dedicação. E os integrantes da equipe adulta rubro-negra, o trabalho realizado por Rafael também recebeu elogios e conseguiu fazer grandes amizades.

O blog Garrafão Rubro-Negro realizou uma entrevista exclusiva com ele abordando todos esses anos dedicados ao Flamengo e alguns momentos marcantes dessa trajetória.

Rafael Bernardelli – Preparador físico do basquete do Flamengo entre 2008 a 2019

O primeiro ano no Flamengo e quem foram os grandes apoiadores nesse inicio de ciclo profissional dentro do clube

– Existem várias lembranças, mas duas mais me marcaram e eu conto elas para todos. A primeira foi no meu primeiro dia como estagiário, estava com André arrumando as coisas para dar um treino físico no campo e aí vem chegando os jogadores, fui cumprimentando cada um,me apresentando e quando chego pra apertar a mão do Marcelinho, eu fiquei estático e branco. Não tinha noção que ia treinar um ídolo do basquete brasileiro. A segunda foi na minha estreia no Flamengo no jogo épico contra o Boca Juniors no Tijuca pela Liga Sul-americana. Lembro até hoje quando eu ficava ali no cantinho da saída dos vestiários esperando os jogadores sairem para quadra. Nesse dia eu parei fiquei olhando o Tijuca lotado até o teto, e me fiz uma pergunta “olha Rafael, aonde você está se metendo hein?” Fico arrepiado quando lembro desse jogo. E tem duas pessoas fundamentais para eu entrar no clube como preparador físico e sou grato eternamente ao André Guimarães e o Paulo Chupeta por acreditarem em mim recém-formado para tomar conta daquela equipe super vitoriosa.

 

A oportunidade de trabalhar com grandes técnicos e preparadores físicos no Flamengo e o reconhecimento aos profissionais Diego Falcão e Bruno Nicolaci

-Sou um cara muito privilegiado, tive oportunidade de trabalhar com pessoas de alto nível profissional e de caráter. Todos eles me agregaram muito como pessoa e profissional, claro que fui buscando um pouquinho de cada um para formar meu estilo de trabalhar. Por exemplo: Quando trabalhei com Diego Falcão, aprendi a ser um cara hardcore sem medo de dar o estímulo nos atletas e confiar muito no trabalho, pois no final sabíamos que iria dar certo, com Bruno infelizmente não tive muito tempo de trabalho mais. Ele é uma pessoa incrível que eu aprendi o lado da prevenção de lesões, o controle maior das cargas de treinamento diária. Com isso acho que hoje levo um meio termo nesses dois estilos de trabalhar. Gosto de puxar o treino hardcore, mas olho com bastante carinho com as cargas do treinamento e prevenção de lesões.

O reconhecimento e o respeito de Rafael Bernardelli ao trabalho de Diego Falcão no período que estava no clube.

A relação de confiança que ele passou a ter com os jovens da base do basquete rubro-negro e o legado que ele deixa para o futuro do orgulho da nação

-Cara trabalhar com garotos adolescentes é uma coisa surreal de gratificante. Porque você acaba sendo o irmão mais velho ou tio desses meninos. O legado que ficou é que esses meninos sabem que tem se dedicar diariamente dentro e fora das quadras para tentar chegar ao profissional e principalmente sem pisar ou fazer trairagem com ninguém e sim escutar as broncas dos técnicos, os conselhos dos atletas mais velhos. E o que mais me surpreendeu foi que esses meninos compraram a ideia de treinar duro, ter paciência e acreditar que no final a uma recompensa gigante que é ser campeão, porém antes eles vão ter que sentir muito gosto de sangue para chegar algum lugar.

A oportunidade de ter integrado a comissão técnica rubro-negra na conquista do Mundial de Clubes em 2014

-5 anos da conquista? Caramba passa muito rápido parece que foi ontem.  Foi uma experiência inexplicável porque éramos uma comissão técnica igual da Seleção Brasileira: 2 técnicos, 2 fisioterapeutas, 2 preparadores físicos, 2 médicos, supervisor, massagista e roupeiro. Mostramos ao Brasil que quanto mais gente trabalhar no esporte de alto rendimento o resultado aparece. Éramos uma engrenagem onde cada um sabia a sua função e um confiava no trabalho do outro. Aquele elenco era igual a uma família, jogavam com alegria, se divertiam jogando, porém com muita responsabilidade. Mas vou contar um episódio que define esse elenco. Perdemos o primeiro jogo e no dia seguinte fizemos uma reunião antes de irmos treinar. Aí os jogadores junto com a comissão técnica olharam um pra cara do outro e começou a se perguntar, nós somos piores que esses caras? Vamos deixar eles virem aqui fazer festa na nossa casa? Aí entra Vítor Benite e começa a falar e apontar “porra aqui tem campeão olímpico, tem jogadores de seleção brasileira, jogadores que foram pra NBA, jogador de seleção argentina. Somos jogadores campeões, porra vamos ganhar esses caras amanhã” aí imagina como foi o treino? Para resumir era um elenco de homens com caráter e vontade de ganhar sempre.

O aprendizado da viagem para a Venezuela para a disputa da Liga das Américas em 2016

-Nossa essa viagem eu conto pra todos até hoje, ela me fez evoluir como pessoa. Eu vi de perto a realidade da Venezuela, ninguém me contou. Vi de perto um povo sofrer de verdade, vi a balconista do supermercado que tinha no shopping que ficava dentro do hotel pedir pelo amor de Deus pra eu levar sabonete e papel higiênico do quarto para ela. Vi guardas do exército de fuzil 24 horas por dia na frente do saguão do hotel. Essa viagem nos perdemos aquela partida pro Bauru que até hoje dói. Mas resumindo a palavra dessa viagem foi Aprendizado dentro e fora de quadra.

O reconhecimento de jogadores da base e do adulto ao seu trabalho e a eterna gratidão que ele sempre terá do Flamengo que abriu as portas do clube em 2008

-Como eu falo para as pessoas o que vale nesses anos todos de Flamengo foram as amizades que eu conquistei, os títulos são ótimos e é a coroação do trabalho. Mas as amizades e o carinho que você conquista das pessoas isso que vale pra vida. Não é à toa que tenho uma tatuagem com a letra japonesa que significa amizade. Porque quando você tem amizade você não tem interesse e sim em só ver a felicidade do próximo por isso que esses meninos tem essa gratidão por mim, porque até hoje ajudo eles nessa parte e não só são eles tem vários outros atletas e até profissionais do meio que eu ajudo e ajudava passando minhas planilhas e método de trabalho.Com certeza as palavras que definem a minha trajetória no Flamengo são amizade e gratidão! Sou eternamente grato ao Flamengo por tudo que fez a mim e a minha família. Mas agora chegou a hora de sair do ninho pra voar. Quero desejar aqui o maior sucesso do mundo para todos que estão no basquete do Flamengo e que vocês continuem fazendo esse orgulho da nação crescer mais e mais.

Rafael Bernardelli ganhou a confiança dos meninos da base do basquete rubro-negro durante sua trajetória no clube.